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Editorial

Letramento

Literatura para fortalecer vozes indígenas

29 de Novembro de 2021

Luta pela vida. Assim foi batizado o acampamento que abrigou boa parte dos 6 mil indígenas que se deslocaram até Brasília, em agosto de 2021, frente à votação do Marco Temporal*, que reconheceria como território indígena apenas as terras ocupadas na data da promulgação da Constituição de 1988. Para impedir a exploração econômica de terras até agora preservadas, os povos originários se manifestaram. Alguns meses depois, em novembro, o rosto e as palavras incisivas de Txai Suruí, filha do cacique Almir, do povo Paiter Suruí, se destacaram na COP26**, em Glasgow. Primeira brasileira indígena a discursar na abertura de uma conferência do clima, Txai ressaltou que os povos originários estão na linha de frente da emergência climática e, por isso, deveriam estar no centro das decisões sobre o tema.

Mas a resistência não é feita apenas pelos movimentos de protesto e luta por direitos territoriais e ambientais, como em Brasília e Glasgow. Ela vem também na força das narrativas indígenas. Nesse sentido, a literatura tem servido como solo fértil e oportunidade para que representantes dos povos originários, contemporaneamente, mostrem a sua identidade para todos nós, desafiando imagens estereotipadas, cunhadas pelo ponto de vista colonizador. 

O mergulho na literatura indígena se constitui em uma abertura para pluralidades, pois nos leva a espiar como se vive em outras culturas. Apreciar essas narrativas é ensaiar um reconhecimento – nos transporta, como leitores, para outros mundos dentro deste imenso país, convivendo com animais, plantas e costumes de povos ancestrais, dentro de rios ou nos afazeres da aldeia... A literatura, além do encantamento, nos permite uma proximidade que jamais experimentamos, na companhia de inspirados autores, filósofos e pensadores.  

Mas histórias e saberes tradicionais narrados oralmente e traduzidos em escrita e imagens são ainda pouco visíveis aos não indígenas, incluindo os próprios brasileiros. Basta notar quantos são os autores indígenas no país: 57, entre eles, 17 mulheres. 

Com objetivo de democratizar o acesso à literatura dessa origem, o Itaú Social, no programa Leia para uma Criança, propôs um edital para que os livros da edição 2021 considerassem a representatividade dos povos negros e indígenas. O título infantil Os olhos do jaguar, de Yaguarê Yamã, autor de mais de 30 livros, foi a obra escolhida para, seguindo a tradição dos povos originários, transmitir ensinamento a crianças, pais e educadores. Cerca de um milhão de exemplares foram distribuídos gratuitamente a organizações da sociedade civil, bibliotecas comunitárias e órgãos públicos, em especial nos municípios com altos índices de vulnerabilidade social.

No início de novembro, o escritor Yaguarê Yamã foi o mestre em um encontro on-line da série JeniPapos que envolveu participantes em uma vivência de Nheengatu, uma das três principais línguas indígenas faladas no Brasil (as outras duas são o tupi e o guarani). 

Em 2020, encontros como esse, que buscam destacar a literatura de autoria indígena, aconteceram de forma restrita para as equipes do Itaú Social, parceiros e pesquisadores. Entre os convidados indígenas estiveram os líderes e autores Ailton Krenak, Daniel Munduruku, Dona Liça Pataxoop, Dona Vanda Pajé, Eliane Potiguara, Julie Dorrico, além da escritora Conceição Evaristo. Aqueles JeniPapos, momentos de respiro e esperança em plena pandemia, motivaram tantos aprendizados e reflexões que decidimos editar os vídeos e compartilhar aqui no ambiente de formação, o Polo. Preparamos um material acessível que aproxima educadores e interessados da riqueza da literatura de autoria indígena. 

Entre várias conversas marcantes, há uma em que o historiador e pesquisador Ailton Krenak conta que indígenas  e escribas foram quase extintos. “Eles escaparam, conseguiram pular na canoa do século 21 e estão surfando na literatura. Uma literatura que é biográfica, antropológica, etnográfica, que é poesia, ensaios e crítica. Então, não é brincadeira. Essa literatura que estava escondida, como as inscrições rupestres nas cavernas, saiu para fora e está mostrando sua virtuosidade”, ressaltou ele. 

Estender a todas e todos o direito de conhecer e de reconhecer esses autores e autoras, que fazem parte de culturas tradicionais mas são ainda distantes da maioria dos brasileiros, é necessário e um propósito para o qual o Polo deseja contribuir. Em pesquisa recente, identificamos que o público atendido pela plataforma tem grande interesse em formações relacionadas a gênero, diversidade, raça, cultura, direitos humanos, temas que desafiam o seu fazer cotidiano e dialogam com essa distância percebida em relação aos povos originários.

Queremos que a relevância indígena alcance a cada um e cada uma não somente em momentos de protesto e de luta por direitos territoriais e ambientais, primordiais para a sobrevivência humana, mas que as narrativas, orais ou escritas, ocupem o universo das escolas públicas, das bibliotecas comunitárias, das organizações da sociedade civil e reatem os laços de brasileiros de todas as origens e idades com os povos indígenas. 

A comunidade de profissionais que buscam formação no Polo conta hoje com mais de 100 mil pessoas e é pensando nelas que preparamos cada conteúdo deste ambiente, sempre com o desejo de que contribuam para o aprimoramento da prática e para boas reflexões.

Confira: Jenipapos - literatura de autoria indígena

*A tese do marco temporal, atrelada ao Projeto de Lei 490/2007, apoiado pela bancada ruralista, se aprovada, dificulta o processo de demarcação de 303 terras, onde vivem cerca de 197 mil indígenas.

**Conferência sobre mudanças do clima em que as Nações Unidas reúnem anualmente, desde 1995 (exceto em 2020, quando foi adiada por conta da pandemia) quase todos os países do planeta para as cúpulas globais do clima, COPs (Conferência das Partes) com o objetivo de reduzir a emissão de gases de efeito estufa e prevenir mudanças climáticas causadas pelos seres humanos. 

Referências

Leia para uma criança

Gestão da educação para a equidade racial

Povos Indígenas no Brasil - Site do Instituto Socioambiental - ISA

Povos indígenas do Brasil - conteúdo de Geografia do site Brasil Escola 

Povos indígenas no site do Governo do Estado da Bahia traz a definição dada pela Organização das Nações Unidas em 1986:

As comunidades, os povos e as nações indígenas são aqueles que, contando com uma continuidade histórica das sociedades anteriores à invasão e à colonização que foi desenvolvida em seus territórios, consideram a si mesmos distintos de outros setores da sociedade, e estão decididos a conservar, a desenvolver e a transmitir às gerações futuras seus territórios ancestrais e sua identidade étnica, como base de sua existência continuada como povos, em conformidade com seus próprios padrões culturais, as instituições sociais e os sistemas jurídicos.|1|

Marco temporal afeta direito dos povos indígenas - reportagem do Jornal da USP

Entenda o marco temporal e como ele afeta os povos indígenas - reportagem de Superinteressante

 De Rondônia para Glasgow: quem é a jovem indígena que discursou na COP26 - reportagem da CNN Brasil 

Txai Suruí, destaque da COP26: “Vivo sob clima de ameaças desde que me conheço por gente” - reportagem do El País Brasil